DEMIAN
– HERMANN HESSE
Autor:
Hermann Hesse
Editora: Edições
Best Bolso
Cidade: Rio
de Janeiro
Ano:
2012
Páginas: 157
p.
Poderia contar muitas
coisas belas, delicadas e amáveis de minha infância; falar da aprazível
segurança paterna, do carinho infantil [...] Todavia, só me interessam os passos que tive
de dar na vida para chegar a mim mesmo.
Deixo resplandecer na distância todos os pontos de repouso, ilhas encantadas e paraísos, cujo
sortilégio provei e aos quais não desejo
voltar. [...] falarei apenas daquelas
coisas novas que vieram desraigar-me e impulsionar-me para frente. Tais impulsos partiam sempre do "mundo
sombrio", trazendo sempre consigo o
medo, a violência e o remorso, e eram sempre revolucionários e ameaçavam a paz em que eu
gostaria de continuar vivendo. (p.49).
Meu contato com este livro se deu
não por interesse pessoal, mas por meios acadêmicos (apesar de ser uma obra de
ficção). Sob indicação de um professor comprei este livro como forma de
compreender de maneira ficcional
conteúdos trabalhados em sala de aula a respeito de Jung e sua produção teórica,
denominada de “Psicologia Analítica”. Jung foi discípulo de Freud sendo um dos
precursores e grandes nomes da Psicanálise em seu surgimento, porém por
diversas divergências teóricas, Jung deixa a psicanálise e posteriormente cria
um corpo teórico denso, complexo, que propunha uma forma de compreender o ser
humano distinta, curiosa e que gera polêmica desde suas primeiras publicações
até os dias de hoje.
Poderia
falar do livro Demian realizando um diálogo com a psicologia junguiana, mas não
me julgo ainda embasado a ponto de realizar concretamente e com segurança suas
aproximações (Este tipo de análise pode ser facilmente encontrada na internet).
Porem é impossível, para os que conhecem minimamente a teoria junguiana, não
perceber tais aproximações. Pretendo então resumir um pouco a história lida e a
vivência subjetiva que tive ao realizá-la.
Demian
é um livro diferente no sentido de que seu maior conteúdo não estão em
fatos concretos, mas seu enredo e clímax
estão nos diálogos entre o narrador e
ele mesmo e com os outros personagens. O narrador, Sinclair, conta sua própria
história e a forma como “pequenos acontecimentos” modificaram completamente a
sua vida, principalmente a forma como se relaciona consigo mesmo, suas crenças
e suas angustias diante disso. Ao conhecer Demian, um garoto diferente que
chama sua atenção pelo fato de ter posições criticas e diferenciadas e que o
“salva” da “servidão” à um colega que chantageava Sinclair por um “crime” por
ele cometido.
A
partir do momento em que Demian e (posteriormente outros personagens) apareçe
na vida de Sinclair, este entra em contato com diversas reflexões e vivências
que mesclam suas emoções, e a história passa a andar por rumos simbólicos que
não atenho-me a descrever, mas posso relatar que faz com que o próprio leitor
caminhe junto à ele rumo à descoberta de “si-mesmo”.
Este
livro provoca angustia, reflexão, questionamentos e um misto de muitas outras
vivencias em quem o lê e retrata em seu personagem uma caminhada no chamado
“processo de individuação” (conceito da psicologia analítica sobre o funcionamento
da personalidade).
Demian
é um romance de individuação por excelência. Os estágios da jornada de
auto-realização são os vários capítulos. Esta é a única intenção do autor Hesse
[...] O conceito dos dois mundos, o pássaro, Beatrice , mãe Eva e o próprio
Demian são os Arquétipos produzidos pelo inconsciente . Com cada um deles por
sua vez, Sinclair se identifica, e em
cada um ele reconhece um aspecto de sua própria alma ,
assimilando e integrando , assim, as projeções do inconsciente.[...] Eles são
apresentados como reais, e Sinclair se ocupa seriamente com estes
"Personagens" , porque os símbolos não só devem ser compreendidos. , de
acordo com Jung, mas também deve ser uma experiência vital [...], a fim de
tornar-se parte integrante da consciência alargada do indivíduo. (MAIER, 1999,
p. 4, tradução livre.)
Fazer
com que esta leitura possa fazer sentido aos que estão lendo é muito
desafiador, já que inclusive para mim certos pontos da história ainda estão
sendo repensados e martelados. Acho que uma segunda lida neste livro à posteriori possa clarear alguns aspectos
e me deem segurança de descrever a história com mais detalhes, compreendê-la e fazê-la compreendida.

O
livro é indicado para qualquer público, porem considero de difícil compreensão
pelo publico infanto-juvenil por seu caráter simbólico e abstrato. Um leitor
pouco familiarizado com leituras criticas ou presos a paradigmas morais
cristãos podem repelir esta história já que implicitamente encontramos um visão
de mundo diferenciada que contempla o lado “sombrio” humano como útil e
necessário ao sujeito e inclusive faz referencia à uma divindade (abraxas) que
seria deus e demônio ao mesmo tempo e que portanto abarcaria em apenas uma
divindade a polaridade bem-mal. Ainda assim, creio ser uma leitura que amplia
os horizontes de compreensão a respeito do ser humano, sua vivencia subjetiva e
sua condição enquanto ser que vive rodeado de diversos mundos e perspectivas. O
valor da experiência subjetiva é ponto fundamental tanto para o personagem
quanto para os que leem sua história, desde que sejam abertos à esta vivência.
Aos
que provavelmente se perguntaram o porquê da aproximação desta história com a
Psicologia Analítica, informo que Herman Hesse, autor desta obra, foi atendido
por um analista junguiano e em 1919 sub esta influencia escreveu Demian. Mais
tarde retoma o processo de análise com o próprio Jung. (Fonte: Revista Psique)
Hermann
Hesse nasceu em 1877, em Calw (Alemanha), filho de missionários protestantes.
Entra cedo em choque com os pais, que queriam o filho pastor; não se submete à
disciplina da escola e foge para a Suíça, onde trabalha como livreiro.
Dedica-se à poesia , casa-se, mas continua revoltado contra o meio burguês e as
convenções sociais . Muda-se para a Índia e conhece o budismo, que adotaria
pelo resto da vida. [isso explica algumas
posições dos personagens]
Após o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, engaja-se em atividades contra o militarismo alemão. Em 1919, publica "Demian", influenciado pelas ideias de Carl G. Jung. (FONTE: Uol)
Após o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, engaja-se em atividades contra o militarismo alemão. Em 1919, publica "Demian", influenciado pelas ideias de Carl G. Jung. (FONTE: Uol)
Para
saber mais:
·
Uma compreensão do processo de individuação em Demian - http://www.ijba.com.br/index.php?sec=artigos&id=192&ref=demian
·
Onde Comprar:
·
Livro de bolso está entre 9 e 15 reais - http://www.buscape.com.br/demian-bestbolso-hermann-hesse-8577994139.html?pos=8#precos
FONTES:
MAIER, Emanuel. The Psychology of CG Jung in the Works
of Hermann Hesse. USD. University of South Dakota, 1999. Disponível em: <http://www.gss.ucsb.edu/projects/hesse/papers/maier.pdf>
.Uol Biografias: <
http://educacao.uol.com.br/biografias/hermann-hesse.jhtm>
PRÓXIMO LIVRO: AS CRÔNICAS DE
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