domingo, 27 de abril de 2014

Demian - Hermann Hesse

DEMIAN – HERMANN HESSE

Autor:  Hermann Hesse
Editora: Edições Best Bolso
Cidade: Rio de Janeiro
Ano: 2012
Páginas: 157 p.




Poderia contar muitas coisas belas, delicadas e amáveis de minha infância; falar da aprazível segurança paterna, do carinho infantil [...]  Todavia, só me interessam os passos que tive de dar na vida para  chegar a mim mesmo. Deixo resplandecer na distância todos os pontos  de repouso, ilhas encantadas e paraísos, cujo sortilégio provei e aos  quais não desejo voltar.  [...] falarei apenas daquelas coisas novas que vieram desraigar-me e impulsionar-me para frente.  Tais impulsos partiam sempre do "mundo sombrio", trazendo  sempre consigo o medo, a violência e o remorso, e eram sempre  revolucionários e ameaçavam a paz em que eu gostaria de continuar vivendo. (p.49).

            Meu contato com este livro se deu não por interesse pessoal, mas por meios acadêmicos (apesar de ser uma obra de ficção). Sob indicação de um professor comprei este livro como forma de compreender de maneira  ficcional conteúdos trabalhados em sala de aula a respeito de Jung e sua produção teórica, denominada de “Psicologia Analítica”. Jung foi discípulo de Freud sendo um dos precursores e grandes nomes da Psicanálise em seu surgimento, porém por diversas divergências teóricas, Jung deixa a psicanálise e posteriormente cria um corpo teórico denso, complexo, que propunha uma forma de compreender o ser humano distinta, curiosa e que gera polêmica desde suas primeiras publicações até os dias de hoje.

Poderia falar do livro Demian realizando um diálogo com a psicologia junguiana, mas não me julgo ainda embasado a ponto de realizar concretamente e com segurança suas aproximações (Este tipo de análise pode ser facilmente encontrada na internet). Porem é impossível, para os que conhecem minimamente a teoria junguiana, não perceber tais aproximações. Pretendo então resumir um pouco a história lida e a vivência subjetiva que tive ao realizá-la.

Demian é um livro diferente no sentido de que seu maior conteúdo não estão em fatos  concretos, mas seu enredo e clímax estão nos diálogos entre o narrador  e ele mesmo e com os outros personagens. O narrador, Sinclair, conta sua própria história e a forma como “pequenos acontecimentos” modificaram completamente a sua vida, principalmente a forma como se relaciona consigo mesmo, suas crenças e suas angustias diante disso. Ao conhecer Demian, um garoto diferente que chama sua atenção pelo fato de ter posições criticas e diferenciadas e que o “salva” da “servidão” à um colega que chantageava Sinclair por um “crime” por ele cometido.

A partir do momento em que Demian e (posteriormente outros personagens) apareçe na vida de Sinclair, este entra em contato com diversas reflexões e vivências que mesclam suas emoções, e a história passa a andar por rumos simbólicos que não atenho-me a descrever, mas posso relatar que faz com que o próprio leitor caminhe junto à ele rumo à descoberta de “si-mesmo”.
Este livro provoca angustia, reflexão, questionamentos e um misto de muitas outras vivencias em quem o lê e retrata em seu personagem uma caminhada no chamado “processo de individuação” (conceito da psicologia analítica sobre o funcionamento da personalidade).

Demian é um romance de individuação por excelência. Os estágios da jornada de auto-realização são os vários capítulos. Esta é a única intenção do autor Hesse [...] O conceito dos dois mundos, o pássaro, Beatrice , mãe Eva e o próprio Demian são os Arquétipos produzidos pelo inconsciente . Com cada um deles por sua vez,  Sinclair se identifica, e em cada um   ele reconhece um aspecto de sua própria alma , assimilando e integrando , assim, as projeções do inconsciente.[...] Eles são apresentados como reais, e Sinclair se ocupa seriamente com estes "Personagens" , porque os símbolos não só devem ser compreendidos. , de acordo com Jung, mas também deve ser uma experiência vital [...], a fim de tornar-se parte integrante da consciência alargada do indivíduo. (MAIER, 1999, p. 4, tradução livre.)


Fazer com que esta leitura possa fazer sentido aos que estão lendo é muito desafiador, já que inclusive para mim certos pontos da história ainda estão sendo repensados e martelados. Acho que uma segunda lida neste livro à posteriori possa clarear alguns aspectos e me deem segurança de descrever a história com mais detalhes, compreendê-la  e fazê-la compreendida.




O livro é indicado para qualquer público, porem considero de difícil compreensão pelo publico infanto-juvenil por seu caráter simbólico e abstrato. Um leitor pouco familiarizado com leituras criticas ou presos a paradigmas morais cristãos podem repelir esta história já que implicitamente encontramos um visão de mundo diferenciada que contempla o lado “sombrio” humano como útil e necessário ao sujeito e inclusive faz referencia à uma divindade (abraxas) que seria deus e demônio ao mesmo tempo e que portanto abarcaria em apenas uma divindade a polaridade bem-mal. Ainda assim, creio ser uma leitura que amplia os horizontes de compreensão a respeito do ser humano, sua vivencia subjetiva e sua condição enquanto ser que vive rodeado de diversos mundos e perspectivas. O valor da experiência subjetiva é ponto fundamental tanto para o personagem quanto para os que leem sua história, desde que sejam abertos à esta vivência.

Aos que provavelmente se perguntaram o porquê da aproximação desta história com a Psicologia Analítica, informo que Herman Hesse, autor desta obra, foi atendido por um analista junguiano e em 1919 sub esta influencia escreveu Demian. Mais tarde retoma o processo de análise com o próprio Jung.  (Fonte: Revista Psique)
Hermann Hesse nasceu em 1877, em Calw (Alemanha), filho de missionários protestantes. Entra cedo em choque com os pais, que queriam o filho pastor; não se submete à disciplina da escola e foge para a Suíça, onde trabalha como livreiro. Dedica-se à poesia , casa-se, mas continua revoltado contra o meio burguês e as convenções sociais . Muda-se para a Índia e conhece o budismo, que adotaria pelo resto da vida. [isso explica algumas posições dos personagens]
 Após o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, engaja-se em atividades contra o militarismo alemão. Em 1919, publica "Demian", influenciado pelas ideias de Carl G. Jung. (FONTE: Uol)


Para saber mais:  

·         Uma compreensão  do processo de individuação em Demian  - http://www.ijba.com.br/index.php?sec=artigos&id=192&ref=demian
·          
Onde Comprar:


·         Livro de bolso está entre 9 e 15 reais - http://www.buscape.com.br/demian-bestbolso-hermann-hesse-8577994139.html?pos=8#precos


FONTES:
MAIER, Emanuel. The Psychology of CG Jung in the Works of Hermann Hesse. USD. University of South Dakota, 1999. Disponível em: <http://www.gss.ucsb.edu/projects/hesse/papers/maier.pdf>
.Uol Biografias: < http://educacao.uol.com.br/biografias/hermann-hesse.jhtm>


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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Moisés - Charles R. Swindol

SÉRIE HERÓIS DA FÉ - MOISÉS

Autor: Charles R. Swindoll
Editora: Mundo Cristão
Cidade: São Paulo
Ano: 2000
Páginas: 420 p.




“O dia que iria quebrar esse silêncio, porem, amanheceu igual aos outros no deserto. Na noite anterior, enquanto dormia debaixo das brilhantes estrelas do deserto, junto ao rebanho, talvez sob a sombra  ameaçadora do Sinai, ele não viu nenhum meteoro cruzar o céu. Não ouviu voz alguma. Nenhum anjo bateu em seu ombro na hora do café da manhã, dizendo: ‘fique atento, Moisés. Deus vai falar hoje’.Não houve insinuações, premonições, sinais especiais para alertá-lo que Deus iria quebrar o silêncio naquele dia e que sua vida iria mudar para sempre. (...) Sem o menor sinal de advertência. Ele fala a pessoas comuns, em dias comuns.” (p.117)

            No mundo ocidental, de tradição eminentemente cristã, e mesmo no mundo oriental, onde os Judeus espalham-se  entre os diversos países , a figura de Moisés é muito bem conhecida. Não apenas por se popularizar junto a enorme disseminação da Biblia e do Pentateuco (ou Torá), mas também por ser uma história que , para alem da fé judaico-cristã atrai a atenção de seus ouvintes.

Moisés é o predecessor da fé Monoteísta enquanto fato histórico, ele finca as bases da fé, quando sob orientação Divina conduz seu povo (os judeus) rumo à libertação e conquista da terra proibida. Não que o Deus de Israel não se fizesse presente anteriormente, até porque a própria historia bíblica detém de relatos de contato entre Deus e o seu humano desde a criação do mundo.

O que Moisés foi capaz de fazer porem, mais do que a promoção do êxodo e do surgimento enquanto um dos primeiros grandes heróis da fé, foi deter da responsabilidade sobre a unidade política e religiosa da nação Judaica. Ele não foi apenas um “mito”, como muito especulam, mas foi uma figura real e histórica que mudou o rumo da história das civilizações.

Em um estudo sobre a influencia da civilização egípcia sobre a obra de Moisés, o autor faz referencia a existência fatual e histórica deste personagem e sua importância enquanto líder e herói da fé de Israel.

“Já, porem bem longe vai o tempo em que o desvairamento metafísico pretendia transformar os mais celebres heróis e gênios da Antiguidade em meros seres mitológicos. Não! Moisés existiu e foi, sem dúvida, um desses raros homens, uma dessas individualidades excepcionais que, no passado, deram impulso decisivo à vida política e religiosa dos povos. Antes de Moises, é indubitável , as diversas tribos hebraicas não constituíam uma nação, embora reconhecessem que pertenciam à mesma raça, ou melhor, a uma só etnia. A obra do grande chefe, parece ter sido, antes de tudo uma obra política: a criação de Israel pela fundação de uma religião nacional: Yahvé seria o Deus de Israel, e Israel seria o povo de Yahvé.” ( DE SOUZA, 1952)
           
Moisés desconhecia a situação grandiosa à que era destinado por Deus. Vivia , assim como qualquer outro, cumprindo suas obrigações. Mas, sua história era diferente do comum, desde o momento de seu nascimento.

O livro Moisés: um homem dedicado e generoso, de Charles R. Swindoll traz um panorama sobre a vida de Moisés, acontecimentos marcantes e especulações sobre o que estaria passando em sua cabeça diante das grandiosidades do Deus-todo-poderoso.

Não é um livro de valor histórico-cientifico, apesar de manter seu olhar sob a Bíblia, livro que apesar de diversas retaliações, tem-se mostrado fiel em suas descrições de fatos históricos. É um livro de fé, um livro de expressão teológica, muito útil no sentido de compreender as entrelinhas da historia deste grandioso personagem. Consolida a fé e traz à reflexão aos cristãos comportamentos, atitudes e formas de agir de Moisés, que podem ser utilizadas pelo cristão para que também consiga transmitir Deus em suas ações.


Sua leitura é fácil, é indicado para todas as idades, apesar de ser um pouco massante para crianças e adolescentes que não estão acostumados a leituras deste tipo. Muito interessante para líderes eclesiásticos e pessoas que utilizam ilustrações e estudos bíblicos em suas explanações, pois é recheado de exemplos, fatos e suposições que não estão expressos biblicamente, mas que enriquecem o entendimento. Porem, este livro não supre as necessidades de quem quer conhecer fielmente a historia, e por momentos pode fugir à suas intenções, alcançando por vezes objetivos muito amplos deixando a compreensão em alguns momentos confusa.

Charles R. Swindoll, é do Texas (EUA), nascido em 1934, estudou Engenharia Mecânica e serviu à Marinha dos EUA. Após o serviço militar no sudeste da Ásia, decidiu dedicar-se ao ministério pastoral. Em 1955, casou-se, teve quatro filhos. Quatro anos mais tarde, foi aceito no Seminário Teológico de Dallas, do qual viria a ser presidente e atualmente chanceler, formando-se com honras. Em 1966, foi ordenado pastor exercendo seus dois primeiros anos de ministério sob a tutela de J. Dwight Pentecost. Nos anos que se sucederam recebeu diversos títulos honorários de doutor de diferentes universidades.

FONTES:
DE SOUZA, João Francisco. Influência da civilização egípcia sôbre a obra de Moisés. Revista de História, v. 4, n. 10, p. 275-284, 1952. Disponivel em: < http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/download/35078/37817>. Acesso em :23 Abr. 2014.
< https://www.mundocristao.com.br/autordet.asp?cod_autor=6> Acesso em 23 Abr 2014.



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